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terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

A Revolução Federalista em General Carneiro

O município de General Carneiro foi fundado no ano de 1961. No entanto, a partir de 1842 com o início da passagem de tropas de gado pelo caminho que viria a ser a Estrada de Palmas, foram se instalando os primeiros moradores nas terras antes ocupadas pelos indígenas Xokleng e Kaingang.

Corria o ano de 1894 e já havia várias moradias nas margens da Estrada de Palmas, bem como algumas fazendas criadoras de gado. É neste ano que o pânico se instalou na região com os acontecimentos da Revolução Federalista. 

Após dias de peleia na cidade da Lapa, o exército Maragato comandado por Gumercindo Saraiva batia em retirada para o Rio Grande do Sul. Por onde passava ia semeando o pavor típico de uma guerra.

Conforme Cleto da Silva, União da Vitória viu por três dias a passagem do contingente de guerrilheiros. Com moradores apavorados, o comércio paralisou totalmente, os agricultores fugiram para as serras distantes e faltou abastecimento de produtos básicos no povoado.

Nas terras onde hoje é General Carneiro não foi diferente. Joaquim Osório Ribas conta que a população da época passou por enormes sacrifícios pois fazendas foram saqueadas e tiveram de fornecer cavalos de montaria e gado para alimentação dos combatentes. Além disso, por apresentarem resistência ou serem identificados como inimigos, alguns camponeses, como Hildebrando Batista de Andrade, um dos filhos dos fundadores da Fazenda São Sebastião do Iratim, foram degolados. 

Milhares de soldados, tanto Maragatos como Pica-paus, passaram pela Estrada de Palmas. Os carroções que transportavam armas e munições chegaram até a balsa do rio Jangada, e dali em diante a coluna seguiu pela antiga picada de Palmas que não dava passagem às carroças. O material passou a ser transportado em cargueiros que era o meio de transporte adequado à estrada. 

No Horizonte ocorreu confronto entre Maragatos e Pica-paus. Após esse confronto, Gumercindo Saraiva desistiu de ocupar Palmas, rumou para Santa Catarina e depois para o Rio Grande do Sul, onde foi assassinado.

Para compreender melhor…

O que foi a Revolução Federalista?

Foi uma guerra civil que ocorreu no sul do Brasil entre os anos de 1893 e 1895. Iniciou no Rio Grande do Sul e depois se estendeu até o Paraná.

Maragatos X Pica-paus

Eram as duas forças da guerra. De um lado os Maragatos (ou Federalistas), adversários do presidente Floriano Peixoto, defendiam o parlamentarismo e maior autonomia para os governos estaduais. O principal líder maragato era o general Gumercindo Saraiva. Do outro estavam os Pica-paus ou Ximangos, apoiadores do presidente Floriano e de seus métodos de governo. 

Avanço Maragato

Animados por algumas vitórias e também pela articulação com marinheiros que não concordavam com o Marechal Floriano Peixoto, os Maragatos passaram pelo território catarinense e no Paraná conquistaram Paranaguá, Tijucas do Sul, Lapa e Curitiba que havia sido abandonada pelo governador Vicente Machado que fugira para Castro com sua governança. O grupo comandado por Gumercindo Saraiva pretendia ir até o Rio de janeiro para depor o presidente da República. 

O Cerco da Lapa

Essa peleia na Lapa durou 26 dias. Ernesto Gomes Carneiro havia sido mandado pelo presidente Floriano para conter o avanço inimigo. Com apenas 639 homens, poucas armas e falta de alimentos, o coronel Carneiro e sua tropa resistiram aos ataques dos 3 mil combatentes maragatos.

Pelo menos 500 pessoas morreram no Cerco da Lapa, entre elas Carneiro. Apesar da derrota, a batalha na Lapa foi fundamental para que os soldados do governo se reorganizassem em São Paulo, desencorajando os Maragatos que mais tarde bateram em retirada para o Rio Grande do Sul.  

Ernesto Gomes Carneiro foi promovido a general após a sua morte.  

Maragatos em Curitiba

A chegada dos Maragatos à capital paranaense fez com que o governador Vicente Machado fugisse para Castro. Sem estrutura para enfrentar os invasores, alguns empresários curitibanos liderados pelo industrial ervateiro Ildefonso Pereira Correia, o Barão do Serro Azul, fizeram uma espécie de acordo com o general Gumercindo Saraiva. Seria paga certa quantia como empréstimo de guerra e os Maragatos poupariam a cidade de saques e outros tipos de violência. 

Apesar deste acordo entre as partes resultar em menos estragos aos curitibanos, quando Gumercindo Saraiva e seus homens se retiraram de Curitiba, os Pica-paus prenderam o Barão do Serro Azul acusando-o de traidor. Após alguns dias preso, ele foi posto num trem a caminho do porto de Paranaguá. Dali seria mandado até o Rio de Janeiro, onde responderia inquérito. No entanto, no km 65 da Estrada de Ferro Curitiba - Paranaguá o Barão foi fuzilado. 

Revolta da Degola

Em agosto de 1894, já no Rio Grande do Sul, Gumercindo Saraiva foi alvejado por um atirador escondido na mata. Após sua morte, a Revolução Federalista perdeu força. O acordo de paz entre rebeldes e governo foi assinado perto de Pelotas em agosto de 1895.

Dois dias após ser enterrado, Gumercindo Saraiva teve sua sepultura violada por soldados inimigos que o decapitaram, colocaram a cabeça do militar numa caixa de sapatos e a levaram até Porto Alegre para ser entregue ao governador Júlio de Castilhos.

A Revolução Federalista terminou em 1895 e deixou pelo menos dez mil mortos, tanto Maragatos como Pica-paus. A maioria, vítima de degola. 

Esse horrendo recurso era utilizado desde o início da guerra, primeiro pelos federalistas e depois também pelos pica-paus. Era uma forma de economizar munição e causar mais pavor ao inimigo. Por isso esse conflito é também chamado de Revolta da Degola.

Com as mãos às costas, o prisioneiro era forçado a ajoelhar, tendo o pescoço cortado de orelha a orelha. Muitas vezes isso era feito em meio a zombarias e humilhações.

Com bem mais bandidos que mocinhos dos dois lados, a Revolução Federalista deu mostras da barbárie que reinava no sul do Brasil no início da República. 


Revolução Federalista cantada

Colorada Ouça no Spotify

Composição: Apparicio Silva Rillo e Mário Barbará, LP 20ª Califórnia da Canção Nativa (1990)

(Olha a faca de bom corte, olha o medo na garganta

O talho certo e a morte no sangue que se levanta

Onde havia um lenço branco brota um rubro de sol por

Se o lenço era colorado o novo é da mesma cor)

 

Quem mata chamam bandido quem morre chamam herói

O fio que dói em quem morre

Na mão que abate não dói

Na mão que abate não dói


Era no tempo das revoluções

Das guerras braba, de irmão contra irmão

Dos lenço branco contra os lenço colorado

Dos mercenário contratado a patacão


Era no tempo que os morto votavam

E governavam os vivos até nas eleição

Era no tempo dos combate a ferro branco

Que fuzil tinha muy pouco e era escassa a munição


Era no tempo do inimigo não se poupa

Prisioneiro era defunto e se não fosse era exceção

Botavam nele a gravata colorada

Que era o nome da degola nestes tempos de leão


Don Gomercindo Saraiva Ouça no Spotify

Composição: José João Sampaio Da Silva e Noel Guarany, CD Iluminado e eclético 27 anos de arte (2007)

Gaucho-centauro de pua

Medalha de pátria guaxa

Na legenda da bombacha

Há reflexos de lua

Velha encarnação xirua

Cintilando ao sol dos anos

Bronze agreste dos pampeanos

Redemunhando só confins

Entre o sopro dos clarins

De los pueblos soberanos.


Alma-hombre-continente

Viejo caudilho paysano

Mescla de pampa e minuano

Brasões de raça imponente

Tal qual crioula vertente

De alçadas concepções

Donde vieram aos borbotões

Velhos tigres de fronteiras

Ajoelhando a alma inteira

No altar das tradições.


Dom Saraiva el gaucho errante

Del panuelo colorao

Que tranqueando en su tostao

Levaste el pátria adelante

Com la imagem cintilante

De caudillo americano

Que el viejo pago orejano

Saludo en la montonera

La liberdaded y la bandera

Del gaucho y nuestros hermanos.


E se foi pra eternidade

Num flete bueno e pachola

Laço velho a bate-cola

De rédea solta a vontade

É um pendão de liberdade

Mais puro do que vertente

Entrou na história de frente

De chapéu meio tapeado

E um por de sol colorado

Sangrando a alma da gente.


Mas ficaram ressonâncias

Luzindo sobre a planura

Fundamentando cultura

Enchendo vazios... Distâncias

E no templo da estâncias

Entre umbus e cinamomos

Preces nativas dispomos

Na catedral do galpão

No clarim d'um redomão

Proutros rincões nos transpomos.


Essa legenda guerreira

Baguala e continental

Saiu da banda oriental

Sem convenções de fronteira

E foi cruzando altaneira

Com pátria dentro de si

Por Bagé e Itaqui

Arrematando na Lapa

Para luzir esta luz guapa

No capão do caruvi.

 

Revolução Federalista no cinema

O Sobrado (1956), de Walter George Durst e Cassiano Gabus Mendes; Assista

O Preço da Paz ( 2003), de Paulo Morelli; Assista

A cabeça de Gumercindo Saraiva (2018), de Tabajara Ruas; Assista

Sugestões de leitura:

A cabeça de Gumercindo Saraiva, de Tabajara Ruas e Elmar Bones. Editora Record;

Apontamentos históricos de União da Vitória 1768 – 1933, de Cleto da Silva. Curitiba, Imprensa Oficial, 2006;

Apontamentos históricos de Palmas e Clevelândia (1630-1930), de Cleto da Silva. In: Boletim Histórico, Geográfico e Etnográfico Paranaense. Curitiba: Ihgepr, 1976;  

E a revolução esbarrou no Paraná disponível em ttp://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/e-a-revolucao-esbarrou-no-parana-cfsv1lbyo940lvlngw7uwbh3i acesso em 10/08/2017

História do município de General Carneiro, de Joaquim Osório Ribas. General Carneiro, Kayngangue, 2008;

Maria Bueno: Santa de casa, de Sandra Jaqueline Stoll, Conceição dos Santos, Geslline Giovana Braga e Vanessa Durando. Curitiba, 2011;

Revolução Federalista, de Luiz César Kreps da Silva. In: Paraná: espaço e memória. Diversos olhares histórico-geográficos. Curitiba: Bagozzi, 2205;


Grupo Maragato com Gumercindo Saraiva (o barbudo sentado ao centro) https://pt.wikipedia.org/wiki/Revolu%C3%A7%C3%A3o_Federalista#/media/Ficheiro:Gumercindo_tropa.jpg    

Praça General Carneiro (Lapa - PR) https://www.lapaturismo.com.br/copia-hotel-vovo-nana-1

Marco no Km 65 da Estrada de Ferro Curitiba - Paranaguá, local do assassinato do Barão do Serro Azul. https://amantesdaferrovia.com.br/blog/a-ultima-viagem-do-barao-do-serro-azul

Panteon dos Herois (Lapa - PR), abriga os restos mortais do General Carneiro e de outros combatentes do Cerco da Lapa. https://www.lapaturismo.com.br/copia-museu-historico
   
Degola de um inimigo durante a Revolução federalista. https://www12.senado.leg.br/noticias/videos/2015/07/guerra-da-degola-resistencia-no-sul-a-proclamacao-da-republica-e-tema-do-arquivo-s

segunda-feira, 19 de julho de 2021

Entrevista com o professor Joaquim Osório Ribas, autor do livro História do município de General Carneiro

No dia 02 de junho de 2021 recebemos em uma de nossas aulas do Programa Mais Aprendizagem no Colégio Estadual Pedro Araújo Neto o professor Joaquim Osório Ribas, autor do livro História do município de General Carneiro, pesquisador do tropeirismo e de história regional. Na ocasião ele realizou um bate papo via Google Meet com dezenas de estudantes e algumas pessoas da comunidade escolar sobre o papel do tropeirismo na formação e desenvolvimento de nossa cidade. Ao final da aula ele ficou à disposição para responder por escrito perguntas que não puderam ser feitas ou respondidas em razão do pouco tempo disponível.

Cartaz de divulgação da aula com o entrevistado 

estudante Bruna Alexandra Ânes trouxe várias indagações que gostaria que fossem apresentadas ao professor Joaquim. Assim, eu, ela e o estudante Guilherme Machado, organizamos essas indagações que viraram vinte e três perguntas que foram encaminhadas ao professor Joaquim e respondidas uma à uma via mensagens de WhatsApp. Apresentamos abaixo a entrevista.

Boa leitura! Fiquem à vontade para fazer observações, críticas ou tirarem dúvidas. Para isso usem o campo "comentários" abaixo da publicação.

Pergunta: O senhor não nasceu em General Carneiro, não é? Como então foi esse contato inicial com nossa cidade e o que despertou o interesse em escrever o livro História do município de General Carneiro?

Professor Joaquim Osório Ribas: Não nasci em General Carneiro, mas nasci ao lado de Iratim de Palmas,  na Fazenda Serro do Inglês, confrontando  com a Fazenda São Bento, onde se deu o começo da ocupação do atual Município de General Carneiro.  Portanto, desde minha infância convivi com o povo do Iratim, participando da festa  de  São Sebastião.  Além disso morei na cidade de General Carneiro,  quando foi gerente do Banco do Brasil. Não foram só esses os vínculos com essa comunidade. Durante toda minha vida transitei pela antiga  estratégica de Palmas e atualmente pela BR 153. O carinho e a generosidade do povo desse Município sempre marcaram meus sentimentos,  onde tenho grandes amizades. 

O antigo caminho das tropas foi assinalado por tantos acontecimentos que ficaram gravados em minha história e isso facilitou o registro de fatos que compõem a história do Município. Foi relevante a colaboração de um dos mais ilustres moradores do Município, o Dr. Josué Guimarães (Zuzu). Homem apaixonado por essa terra, onde foi o Prefeito instalador do Município desmembrado de Palmas. Pesquisei a historia e participei de seminários sobre o tropeirismo  e descobri que General Carneiro é testemunha valiosa para esse estudo de nossa cultura. O território do Município, de Norte a Sul, é atravessado pelo antigo Caminho das Missões, por onde durante mais de um século,  passaram as tropas vindas do Sul rumo aos Campos Gerais e à Feira de Sorocaba. No retorno os tropeiros levaram daqui para os confins da nação brasileira a cultura dos eslavos  que se estabeleceram nesta terra.  Nessa epopeia gloriosa de um ciclo que durou mais de um século, este Município, através dos tropeiros, levou para o Sul uma arquitetura de madeira em substituição às casas de taipa dos antigos paulistas e.gaúchos  O uso da carrocinha puxada por cavalos em substituição ao moroso carro de bois. Uma culinária mais rica em nutrientes além dos costumes sociais e religiosos. Falamos desses aspectos culturais porque os campos do Sul eram ocupados por uma cultura latifundiária e escravocrata. General Carneiro abrigou a Colônia de imigrantes mais avançada no Sul do Paraná. Estes os fundamentos que  nos  levaram a escrever um modesto livro.

O livro da história da cidade foi publicado em 2008. Quanto tempo que o senhor levou pesquisando e como foi a elaboração e publicação do livro?

A pesquisa demorou poucos meses por que muita coisa eu conhecia de minha vivência na região.  Recorri às pessoas mais idosas para confirmar fatos. A Prefeitura na gestão  do Professor Vilmar (Simm, atual diretor do Cepan. *Parêntese meu)  na Secretaria da Educação e do Prefeito Juarez Ferreira Martins financiou a  edição da obra. O lançamento ocorreu numa memorável solenidade promovida pela Academia de Letras do Vale do Iguaçu com a presença das Academias de Letras de Palmas, Guarapuava, Sul Brasileira de Letras, do folclorista Vicente Teles,  do Grupo Folclórico Ucraniano, do Presidente do Museu do Avião de Curitiba e grande número de pessoas de General Carneiro é região.


Capa do livro publicado pela editora Kaygangue no ano de 2008

Onde o senhor pesquisou sobre a história de General Carneiro e quais as fontes utilizadas na pesquisa?

A resposta está praticamente contida na da pergunta anterior. Acrescentaria que pesquisei em General Carneiro e União da Vitória. 

Quando seus familiares vieram morar na região ainda era forte a presença indígena, não é? Como foi essa relação, esse contato com os povos indígenas que aqui viviam? Como os indígenas foram desaparecendo daqui?

Sim. Quando meus Bisavós e avós vieram morar em Palmas a região era ocupada por inúmeras tribos de índios. A convivência gerou muitos conflitos e enorme derramamento de sangue..A resistência dos nativos foi muito forte contra a presença dos brancos. No Município de General Carneiro ocorreu a tragédia da catequese descrita no livro, quando uma tribo inteira foi dizimada pelos fazendeiros. Algumas fazendas dispunham de pessoal armado e cães farejadores para caçar "Bugres". Os  tropeiros sofreram constantes ataques ao longo do caminho das tropas. As fazendas eram verdadeiras Fortaleza para se defenderem dos ataques dos  índios.  Até mesmo os militares comandados pelo Cel. Belarmino na construção da estratégia sofreram sangrento ataque revidado violentamente . Portanto a relação entre brancos e índios não foi tranquila.

Vale ressaltar que na atualidade o termo "bugre" que era usado pelos fazendeiros não é mais adequado aos povos originários/ indígenas. Assim como outros termos utilizados em diferentes épocas (negros da terra, gentios ou silvícolas) também não são mais aceitos pelos nossos povos originários ou pelos estudiosos.    

Na aula que nos deu sobre o Tropeirismo, o senhor relatou que alguns caminhos eram evitados pelos tropeiros em razão da presença indígena. O que esses índios faziam para quem por ali passasse?

O sertão da região era ocupado por diversas tribos de índios. Algumas ferozes por isso era necessário evitar o confronto. 

Quais as tropas que passavam por General Carneiro? O senhor tem informações sobre qual foi a última tropa ou em que ano que passou a última tropa aqui por General Carneiro?

Por General Carneiro passavam tropas de mulas vindas das Missões do Rio Grande do Sul e da Argentina com destino  à feira de Sorocaba. Tropas de gado de corte com destino aos Campos Gerais e Curitiba. Tropas de porcos com destino aos frigoríficos de Ponta Grossa e Jaguariaíva. Tropas de cargueiros que se abasteciam de sal e mercadorias para os Campos de Palmas. Além de tropa de  perus, mais raras, que abasteciam o mercado de União da Vitória.  A última tropa de mulas que atravessou o perímetro urbano de General Carneiro foi por volta de 1950. As tropas de gado de corte continuaram passando até 1960 para abastecer o mercado de União da Vitória.

Nas tropas de porcos que passavam por aqui como elas eram conduzidas? Como faziam para dormir? O que acontecia se ocorresse um estouro de tropas de porcos?

As tropas de porcos eram conduzidas por peões a pé e a cavalo, com cargueiros de milho para alimentação dos animais. Em lugar do madrinheiro das outras tropas seguia na frente um peão chamando e entretendo os porcos com pingados de milho.

O senhor tem notícia de algum estouro de tropa aqui em General Carneiro? Que providências eram tomadas em caso de a tropa sair do controle da equipe tropeira?

Um estouro de tropa de gado ocorreu na Fazenda Santa Rita. Violentíssimo quando cerca de 700 bois estouraram  a cerca do curral durante a  noite e num alvoroço terrível os animais se precipitaram numa serra ladeira abaixo, ocasionando a morte de mais de uma centena de bois.

Sendo General Carneiro rota de tropas, havia algum serviço especializado para atender os tropeiros ou as tropas?

Sim. No território do atual Município existiam cerca de quatro hotéis com porteiros para abrigar as tropas e os tropeiros. Existiam diversos estabelecimentos comerciais junto aos pousos de tropas. Além disso existiam dois cortumes de couro e profissionais especializados  na produção de artigos de montaria e indumentária usada pelos tropeiros.

Quais eram as fazendas que davam pouso para os tropeiros e as tropas em General Carneiro?

Se formos citar Fazendas que ofereciam pouso seriam a Santa Rita, Horizonte,  S. Sebastião do Iratim , Chico Pampa e as localidades de Passo da Ilha, Pouso Bonito, Passo da Galinha, Marco Cinco(Tatu) e Jangada.

O senhor sabe quando foi fundando o primeiro CTG (Centro de Tradições Gaúchas) em General Carneiro e quem foram os fundadores?

Não tenho conhecimento da fundação do primeiro GTG. Ressalto, porém que os CTGs constituem hoje o maior movimento cultural do mundo e perpetuam a história do tropeirismo.

Havia alguma coisa que era produzida em General Carneiro para atender diretamente as necessidades dos tropeiros? Qual a importância econômica das passagens de tropas por aqui?

A passagem e pouso das tropas deu origem à atual cidade de General Carneiro. A economia local girava em torno das tropas. Eram hotéis,  potreiros de aluguel,  ferrarias , celarias, casas de diversão,  festas religiosas, estabelecimentos comerciais, etc.

O senhor que trabalhou no Banco do Brasil por um bom tempo deve ter uma noção sobre a economia da cidade em diferentes épocas. Qual foi a época de maior prosperidade econômica de nosso município?

A fase da extração da Madeira da floresta nativa e da erva mate teve movimentação financeira, porém com intensa concentração da propriedade. Socialmente essa riqueza foi negativa.

Quanto à atividade madeireira, quando se iniciou esse ramo econômico aqui? Qual foi a primeira serraria em General Carneiro? Qual foi a maior em produção e número de funcionários?

A derrubada da floresta  nativa com a instalação de grandes madeireiras teve início na década de 1940. A maior delas deve ter sido as Serrarias Reunidas Irmãos  Fernandes, na Fazenda São Bento. Antes instalou-se uma pequena serraria no Pouso Bonito de propriedade da família Donner.

Na sua opinião, há um potencial agrícola em General Carneiro? O que precisava ser feito em nosso município para desenvolver as atividades rurais e manter a população no campo?

A agricultura do Município está se desenvolvendo graças a desconcentração da propriedade. A elevação dos preços das comodities está atraindo investimentos na agropecuária. Quanto à fixação do homem no campo não sei se é desejável porque contraria o movimento da humanidade rumo à concentração urbana.

Como foi escolhida a sede do nosso município? Quem teve a ideia de instalar o centro “quase dentro” do rio Torino?

Pois é,  havia duas sedes distritais Iratim e Jangada do Sul e o Município teve como sede o Passo da Galinha. Certamente foram disputas de natureza política. Os políticos do Passo da Galinha tiveram mais força.

É destacada por muitos o pioneirismo dos imigrantes ucranianos e poloneses na formação de General Carneiro. No entanto, sabemos que há aqui grande presença de descendentes de indígenas e negros. Como o senhor definiria a composição do povo carneirense?

A população nativa ocupou a região do Iratim, mais ao Sul do Município. Ali estavam as campinas com pastagens para criação de gado que foi a primeira atividade econômica.  A Colônia Agrícola de General Carneiro em Jangada do Sul  foi criada para assentar os imigrantes eslavos. 

Em que ano foi aberta a BR-153 e qual a importância dela para General Carneiro?

A BR 153 foi aberta em 1974 sobre o traçado da antiga estratégica de Palmas que era o caminho das tropas.  Foi decisiva para o progresso não só do Município de General Carneiro mas da região Sul do Paraná.

Sobre o avião que caiu em General Carneiro, o senhor pode explicar melhor para nós essa história? Quando foi feito o monumento no Marco Cinco?

O avião pilotado pelo Capitão Kirk caiu sobre a estratégica de Palmas durante a Guerra do Contestado.  Esse avião fazia um voo de reconhecimento dos redutos de sertanejos revoltados contra a expulsão de suas terras.  Provavelmente uma tempestade provocou o acidente. No ano de 1980 presidi o Primeiro Simpósio de História Regional e para assinalar o evento,  com o apoio do Prefeito Antônio Costa, com projeto elaborado pelo Engenheiro Humberto Osório Ribas, construímos o monumento para abrigar a Cruz do Aviador. Esse acidente foi um dos primeiros no mundo com avião em operação militar. 

Observação: o aviador em seu relatório iria orientar a infantaria no ataque contra os rebelados.

O senhor sabe explicar a origem do nome Jangada?

A denominação de Rio Jangada deve-se à  expedição da qual participou o Padre Ponciano procurando os cobiçados Campos de Palmas. Depois de perderem um espingarda no Rio ao chegarem no Rio seguinte resolveram construir uma jangada para atravessá-lo. Daí os nomes de RIO ESPINGARDA e RIO JANGADA.

E o General Carneiro? Quem foi ele? Quem escolheu e por que foi escolhido este nome para nossa cidade? 

O General Carneiro  comandou a resistência da Lapa contra o cerco dos maragatos. Foi considerado  herói nacional porque os pica-paus ganharam a Guerra Federalista de 1893. Mas nunca teve qualquer relacionamento com a nossa região. Foi um militar vindo de outro estado completamente desconhecido na região.

Quem foi Pedro Araújo Neto, homenageado com o nome de nosso colégio?

Pedro Neto, como era  chamado, foi um cidadão intimamente ligado ao Município de General Carneiro. Foi um dos herdeiros da Fazenda São Bento. Foi político que conseguiu a construção de escolas, nomeação de professores e exerceu a função de  inspetor escolar. Era muito amável e visitava escolas para avaliar a qualidade do ensino. Orientou os professores e fez arguição  de  centenas de estudantes nas escolas isoladas. Tive a oportunidade de encontrá-lo andando a cavalo pelos caminhos do sertão para visitar escolas. O diálogo com ele era enriquecedor. Era natural da Palmeira e veio para os Campos de Palmas  para explorar a pecuária em Fazendas herdadas pela sua esposa dona Maria Neta, como era conhecida. Conseguiu a instalação da agência dos Correios no Horizonte, onde sua esposa era a responsável.  Construiu um hotel no Horizonte para atender os passageiros da diligência que ligava Palmas a União da Vitória.

Qual a importância de conhecermos a história de nossa cidade?

Esta última pergunta considero a mais importante de todas.  É decisivo o conhecimento da história do Município. O sentimento de pertencer à uma comunidade é o ponto de partida para o amor à pátria. O Município é a célula mater da nação.  É aqui onde vivemos que desabrocha o conceito de cidadania.. Existe um provérbio que diz: só se ama aquilo que você conhece. A história nos identifica.  Se não soubermos de onde viemos não saberemos para onde ir. A história do Município  mostra nossas origens. É berço de nossos antepassados. A pátria começa no Município.


Professor Joaquim Osório Ribas e eu (02/06/2021)



quinta-feira, 30 de abril de 2020

General Carneiro, sobre o nome da cidade

O nome da cidade de General é em homenagem ao militar Antônio Ernesto Gomes Carneiro que, por sinal, nunca pisou no território do município. 




Mineiro da cidade de Serro, ele foi jovem para o Rio de Janeiro. Entrou no exército como Voluntário da Pátria para lutar na Guerra do Paraguai (1864-1870), depois seguiu carreira militar, chegando ao posto de coronel.

Durante a Revolução Federalista, guerra civil iniciada no Rio Grande do Sul que se espalhou por Santa Catarina e Paraná entre os anos de 1893 e 1895, ele foi escalado pelo presidente Floriano Peixoto para tentar conter os Maragatos, grupo de opositores que ambicionava marchar até o Rio de Janeiro para depor o presidente. 

Carneiro morreu em combate no episódio conhecido como Cerco da Lapa, ocorrido na cidade paranaense de mesmo nome. Ele era coronel mas, foi promovido ao posto de general após a sua morte.

Tido como herói à época, pois salvou de uma possível deposição o presidente Floriano Peixoto, como forma de homenagem, o governo federal pôs na colônia de imigrantes localizada em Jangada do Sul o nome de Colônia de General Carneiro.
Segundo Joaquim Osório Ribas, em 1927, a sede do Distrito de General Carneiro foi transferida de Jangada do Sul para o Iratim, na sede da antiga Fazenda São Sebastião, com o nome de General Carneiro.
Quando da emancipação política de General, ocorrida em 1961, não se sabe quem escolheu este nome para a cidade, sendo que o local designado para a sede do município era conhecido como Passo da Galinha.

Fontes: 
Foto do General Carneiro, https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/e-a-revolucao-esbarrou-no-parana-cfsv1lbyo940lvlngw7uwbh3i/ acesso em 30/04/2020;
Foto da estátua de General Carneiro e do Panteon dos Heroes, http://www.circulandoporcuritiba.com.br/2012/02/circulando-pela-lapa-panteon-dos-heroes.html acesso em 30/04/2020;
RIBAS, Joaquim Osório Ribas. História do município de General Carneiro. General Carneiro: Kayngangue, 2008. (Páginas 59 a 61)